Nos últimos anos, o uso de wearables devices em oncologia deixou de ser apenas promissor e avançou para aplicações cada vez mais estruturadas na prática assistencial. Um estudo publicado na JAMA Oncology destaca como sensores de atividade, smartwatches e dispositivos corporais podem transformar a jornada do paciente ao fornecer dados contínuos, algo impossível de obter apenas em consultas presenciais.
Os estudos apontam três movimentos importantes nesse cenário:
Monitoramento clínico mais sensível
Métricas objetivas de movimento começam a complementar o performance status em tumores como o câncer de pulmão, trazendo maior precisão para decisões terapêuticas.
Cuidado remoto estruturado
Estudos piloto que integram wearables e electronic patient-reported outcomes (ePROs) demonstram alta adesão e capacidade de identificar precocemente toxicidades e quedas de performance funcional.
Sobrevivência e qualidade de vida
Meta-análises em sobreviventes de câncer mostram que programas guiados por wearables aumentam o nível de atividade física e melhoram indicadores de saúde e bem-estar.
O desafio agora é avançar da coleta de dados para a integração efetiva no fluxo clínico, garantindo interoperabilidade, critérios claros de ação e modelos de cuidado capazes de transformar sinais contínuos em decisões práticas.
O olhar da prática clínica
Para aprofundar essa discussão, conversamos com Dr. Janot Gustavo Faissol Janot de Matos, médico intensivista do Einstein Hospital Israelita e especialista em Segurança do Paciente, que compartilhou sua visão sobre o papel do monitoramento remoto no cuidado oncológico.

Segundo o Dr. Janot, o monitoramento remoto contínuo por dispositivos vestíveis representa uma mudança estrutural no modelo de vigilância do paciente oncológico. Em vez de avaliações intermitentes – como aferições de sinais vitais a cada 6 a 8 horas na enfermaria ou apenas durante consultas presenciais – os wearables permitem um fluxo contínuo e em tempo real de dados fisiológicos.
Esses dispositivos são capazes de captar variações de frequência cardíaca, respiração, oximetria, temperatura e padrões de movimento, criando uma visão muito mais detalhada da condição clínica do paciente. Na prática, isso permite identificar riscos, toxicidades e sinais de deterioração que, no modelo tradicional, só seriam percebidos em uma avaliação presencial.
Com essa visibilidade ampliada, as equipes podem intervir mais cedo, recalibrar o plano terapêutico, acionar times de resposta rápida e, consequentemente, evitar a progressão para quadros mais graves. Trata-se de um avanço que contribui para um cuidado mais rápido, mais preciso e mais seguro.
O que vem pela frente
Ao olhar para os próximos três a cinco anos, o Dr. Janot destaca que os dispositivos vestíveis devem passar por uma evolução significativa. A tendência é que se tornem mais leves, menores e confortáveis, viabilizando o uso contínuo sem impacto na rotina do paciente.
Além disso, a maior acessibilidade desses dispositivos permitirá ampliar o monitoramento não apenas para pacientes internados, mas também para contextos ambulatoriais e de pós-alta. Outro ponto central será a integração com plataformas de vigilância e inteligência artificial, viabilizando análises preditivas capazes de antecipar sepse, toxicidades associadas a tratamentos quimioterápicos ou imunobiológicos, complicações respiratórias e sinais precoces de deterioração clínica.
Nesse cenário, a oncologia tende a evoluir para um modelo em que o paciente permanece constantemente conectado, com uma camada digital de proteção que amplia a segurança assistencial, reduz internações evitáveis e permite intervenções cada vez mais precoces e qualificadas.
