A indústria de cosméticos vive um paradoxo: nunca houve tanta tecnologia disponível, e ainda assim, nunca foi tão difícil transformar inovação em diferenciação real, especialmente quando se trata de produtos que impactam diretamente a saúde e o bem-estar do consumidor.
Para Ligia Ferreira, Diretora Associada de Pesquisa e Desenvolvimento da Coty – uma das principais empresas do setor de beleza no mundo e que conta com um portfólio que inclui marcas como Risqué, Monange, Bozzano e Cenoura & Bronze – esse paradoxo tem nome: velocidade versus robustez. “O consumidor está cada vez mais exposto a informações e tecnologias, o que exige que a gente traga evoluções de produtos com agilidade, mas sempre garantindo segurança e eficácia, especialmente em um ambiente altamente regulado“, afirma.
Equilibrar esses dois vetores, como agilidade e rigor, está no centro do trabalho de Ligia à frente do R&D da Coty, e foi o que a levou a apostar em um modelo de colaboração científica com a Eretz.bio (uma das frentes de inovação do Einstein), que ainda é raro no setor.
O gap que ainda separa dados de decisão
Entre os desafios mais recorrentes no desenvolvimento de produtos cosméticos está a geração de evidência contextualizada o suficiente para embasar claims robustos, sustentar decisões regulatórias e, principalmente, entregar o que o consumidor realmente espera.
Ligia aponta um aspecto que muitas vezes passa despercebido nas discussões sobre inovação: a representatividade nos estudos técnicos. “Garantir um olhar inclusivo, assegurando representatividade no desenvolvimento, considerando populações miscigenadas e aspectos regionais, é fundamental”, diz. O Brasil é um país diverso, com diferenças climáticas e culturais relevantes, o que demanda validação dos produtos em diferentes condições. Esse ponto é especialmente relevante quando consideramos as diferentes respostas cutâneas entre os diversos tipos de pele, incluindo a predisposição à hiperpigmentação, irritações, inflamações e outras condições que exigem um olhar ainda mais próximo da dermatologia.
Em um mercado no qual consumidores exigem autenticidade e identificação com as marcas, desenvolver produtos validados em contextos que de fato espelhem a realidade brasileira vai além da boa ciência: pode ser, também, vantagem competitiva.
O papel da inovação translacional na construção de diferenciação
Para endereçar esse tipo de gap, a Coty estabeleceu uma parceria de inovação translacional com a Eretz.bio; a colaboração foi estruturada para gerar conhecimento aplicável em um ambiente com infraestrutura de última geração e acesso a cientistas e especialistas do Einstein – profissionais com sólida experiência clínica, capazes de conectar a prática médica ao desenvolvimento científico, contribuindo para a validação de soluções mais seguras, eficazes e alinhadas às necessidades reais dos consumidores.
“A complementaridade dos centros de pesquisa traz um olhar ampliado para as soluções que são desenvolvidas, com foco no consumidor e atendendo de forma mais abrangente às suas necessidades“, explica Ligia. Ela destaca ainda que a inovação aberta traz não apenas mais consistência, mas agilidade. “Captar conhecimento e promover trocas de ideias fora da empresa traz mais agilidade e consistência para nossas inovações.”
Na prática, evidências geradas em colaboração com hubs de inovação qualificados chegam ao processo de desenvolvimento com uma credibilidade difícil de construir somente internamente – e com a independência necessária para sustentar claims perante reguladores e consumidores cada vez mais exigentes.
As frentes que, de fato, estão transformando o mercado
Quando o assunto é o mapa de inovações que realmente impactam o setor, Ligia tem uma visão clara sobre o que é transformação e o que ainda é tendência. Entre as frentes que ela aponta como efetivamente transformadoras está a recomendação automatizada de cosméticos. “O consumidor recorre cada vez mais às inteligências artificiais para tomar decisões e acessar informações de forma rápida e consolidada. Por isso, é essencial que os produtos tenham uma comunicação clara de benefícios e estejam conectados às necessidades reais e ao contexto social do consumidor.”
Isso coloca uma pressão crescente sobre claims: se um consumidor perguntar à IA qual hidratante comprar para pele negra com tendência à hiperpigmentação, tende a receber como resposta os produtos com melhor evidência técnica disponível. Marcas sem estudos robustos e comunicação científica clara correm o risco de ficar invisíveis, não por falta de qualidade, mas por falta de documentação.
A personalização é a outra frente que Ligia destaca como genuinamente transformadora. “A busca por individualidade continua forte e, com a evolução da tecnologia, saber que um produto é feito para você ou que tem um caráter único traz um senso de humanidade à experiência.” Ela cita o exemplo das “misturinhas de esmaltes” da Risqué que viralizam nas redes sociais; um caso em que a própria marca abre espaço para a cocriação do consumidor.
O que essa experiência aponta
A experiência de Ligia na Coty aponta para algo que vai além do portfólio de produtos ou da escolha de ativos. O que está em jogo, na visão dela, é uma mudança na lógica de como as empresas de cosméticos geram e gerenciam conhecimento.
Um dos movimentos que ela destaca é investir em evidência antes do claim – e não como resposta a exigências regulatórias ou de comunicação. Parcerias com centros de pesquisa translacional permitem que o rigor científico seja construído junto com o produto, desde o início do desenvolvimento.
Outro ponto que emerge da experiência da Coty é tratar a diversidade como dado de entrada, e não como ajuste de portfólio. Para Ligia, validar produtos em contextos que reflitam a realidade do consumidor brasileiro – em toda a sua diversidade étnica, climática e cultural – conecta ciência e mercado de uma forma que dificilmente se constrói de dentro para fora.
